Esta foi uma entrevista dada ao site do iG Jovem, no mes passado:
21/11 - 08:45hs
Muita personalidade
Os diferentes estilos que fazem a cabeça dos jovens
Bruno B. Soraggi
No guarda roupa dele se encontra jaquetas de couro, calça apertada e cintos. No dela, vestidos longos pretos, sobretudos, coturnos e muita maquiagem. Em um terceiro armário, mais distante – mas não menos original –, os cabides sustentam roupas que, pasmem, não são obrigatoriamente rasgadas. O primeiro é do ‘metal’. A segunda diz ser “gótica de nascença”. Já o último é um punk com direito a cabelo moicano. O que esses três armários têm em comum? Carregam muita atitude e personalidade de jovens que escolheram seus estilos e resolveram enfrentar o preconceito.
Victor Otávio Carvalho Marques, 18, é um deles. Logo de cara, porém, esse cabeludo, estudante de Letras deixa claro que não é ‘metaleiro’. “Esse termo é incorreto, foi criado. O mais adequado seria ‘metal’ mesmo”, explica. Ele, que diz ser desse gênero desde os 12 anos e ter um carinho especial pela banda Motorhead, conta que escolheu o estilo porque buscava “algo novo”. “Eu não me adaptava a nenhum estilo, então fui buscar algo que quebrasse os padrões, que saísse da mesmice”, afirma.
Foi por volta dos 12 anos também que Felipe Mamud Oliveira, 18, entrou para o movimento punk. “A partir de uns shows eu fui pesquisando a cena, fui a reuniões e a todos os lugares que eu fui os punks sempre me receberam bem. O punk é anti-racismo, anti-homofobia, anti-fronteiras... Identifiquei-me conforme o tempo”, relata. E também ensina: “falar que punk só usa coisa rasgada é mentira. Dizer que se deve vestir assim é errado porque é conservadorismo, e nós somos anti-conservadorismo”.
A executiva Lia Macedo, por sua vez, conta que o estilo gótico sempre esteve dentro dela. “Eu costumo dizer que isso vem de nascença porque sempre existiu um traço de personalidade em mim que tendia para a melancolia, o soturno. Parece bobeira. Desde criança gostava de ir a lugares antigos e, sei lá, fui me amarrando”, assegura. Mas foi quando ela tinha cerca de 13 anos que isso começou a ficar mais forte. “Eu ia para casas noturnas e sentia uma alegria enorme de estar lá”, lembra. Ela considera o gótico um estilo de vida. “Jamais deixei de usar preto, ler meus livros... Vou morrer gótica”, se vangloria. Elaine deixa claro, porém, que ser gótico não significa ser um suicida em potencial. “Acho que com os anos a coisa foi sofrendo uma distorção. Há muita gente que se diz gótica e tem muito pouco conhecimento sobre essa cultura. Ele (o gótico) não tem é muita perspectiva com relação às mudanças”, explica.
Mas a rotina muitas vezes não é fácil para quem resolveu ser diferente. Todos os três jovens têm histórias de hostilidades praticadas por colegas de faculdade, parentes e até por autoridades. Felipe, o punk, conta que amigos já chegaram a ser ameaçados por policiais. “Desde que você usa moicano levantado tem uma galera de militares e policiais que falam que vão te matar”, alerta. “Tinha gente que me olhava torto que só”, conta Elaine, que já chegou a ser chamada de “alma penada”. Agressões por parte de outros jovens também são comuns no cotidiano de muitos jovens como eles.
E para evitar novos problemas, então, que muitos deles passam a adaptar o estilo ao dia a dia. “Bem que eu gostaria de poder usar roupas de ‘metal’ todos os dias, mas as pessoas não estão acostumadas a ver um homem de calça vermelha e cabelo armado. Mas no fim de semana sempre saio com o visual. É como uma identidade”, diz Victor. Seu cabelo, porém, continua indisfarçável em qualquer dia. Com a gótica é mais ou menos parecido. “Visto sempre preto e roupas escuras. Como executiva, uso ternos pretos e camisas vermelhas, por exemplo. Nada ‘over’... Só me transformo mesmo na hora de sair”, brinca.
Isso não significa que tenham deixado mudar sua personalidade. Esses jovens, que dizem aceitar pacificamente outros estilos que não os deles, afirmam que o mais importante é você ser feliz consigo mesmo, estar bem resolvido com seu estilo, o que muitas vezes não acontece com indivíduos que resolvem se integrar a determinadas ‘tribos’ apenas por modismo. Eles próprios, aliás, servem de exemplo para mostrar que, desde que tudo seja verdadeiro, o resto passa.
“No final dos meus estudos de Administração fui excluída do meu grupo de trabalho de conclusão de curso porque eles me achavam estranha. Superei. Aconteceu que o trabalho do outro grupo que me aceitou foi o melhor do ano e ganhou prêmios de honra”, lembra Elaine. “Isso faz parte de ser gótico, creio eu”, termina referindo-se à qualidade de não se abalar com situações adversas. Foi o que fez também o Victor do ‘metal’. “Foi bem difícil achar uma mulher que entendesse o significado disso tudo”, lamenta. Três meses atrás, porém, ele achou motivo para mais otimismo. “É muito melhor ter alguém do meu lado que entenda isso que eu vivo”, completa.

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